segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Maioria dos jovens fora da escola sequer conclui o ensino fundamental

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As salas de aula idealizadas pelo Plano Nacional de Educação (PNE) podem não passar de miragem. Uma das 20 metas estabelecidas pela lei 2014/13.005 é ter todos os jovens de 15 a 17 anos matriculados em colégios até o fim do ano, mas 1,7 milhão de pessoas nesta faixa etária estão longe das escolas — a maioria (52%, ou 862 mil adolescentes) sequer completou o ensino fundamental. A conta foi publicada no novo boletim “Aprendizagem em Foco”, do Instituto Unibanco, com base nos dados do IBGE de 2014.


Há uma fileira de motivos para explicar as carteiras abandonadas. O desestímulo com a escola é um dos principais fatores — os alunos abandonam os estudos após seguidas reprovações, que aumentam a defasagem entre o ano que cursam e aquele no qual deveriam estar. Outros fatores variam de acordo com o sexo. Os homens largam os livros em busca de oportunidades no mercado de trabalho: entre os rapazes que abandonaram o colégio, 63% estavam trabalhando ou procurando emprego. As mulheres se afastam devido à gravidez precoce. Mais de um terço das adolescentes que deixaram de estudar já eram mães.

Superintendente executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques destaca que, ao desistir dos estudos, os jovens estão mais propensos a conseguir apenas empregos precários, transformando-se em adultos de “alta vulnerabilidade econômica”. Segundo Henriques, uma porção expressiva da evasão escolar poderia ser evitada se os professores tivessem uma melhor formação pedagógica.

— Em vez de anular a desigualdade, a escola contribui para aumentá-la — critica. — Há uma grande dificuldade para acolher determinados tipos de jovens, que não se encaixariam em um certo perfil. Eles são tachados como bagunceiros, pessoas que não terão futuro. As avaliações são inadequadas. Os alunos que têm pior desempenho deveriam ter mais atenção.

O currículo engessado também desanima os adolescentes. Henriques critica o excesso de disciplinas obrigatórias, exigindo que os alunos acumulem informações que não lhes interessam.

— Como a escola não indica trajetórias alternativas, aumenta a tensão entre as escolhas do jovem e o material que lhe é imposto. Ele não vê sentido em continuar estudando — lamenta.

Para Edson Nunes, ex-presidente do Conselho Nacional de Educação, a solução contra a evasão escolar está fora das salas de aula.

— São as condições externas que provocam a saída do aluno. E infelizmente nunca foi desenvolvido um diálogo entre a escola e a família — pondera. — Uma menina que deixa a escola porque engravidou possivelmente não teve apoio doméstico. Um rapaz que correu para o mercado de trabalho não sabe que só terá acesso a um salário muito baixo, porque não acumulou qualificações.

O levantamento destaca como a orçamento familiar é proporcional à qualificação dos jovens. Entre aqueles que deixaram a escola antes de concluir o ensino fundamental, a renda média por morador no domicílio é de R$ 436. Daqueles que concluíram o fundamental, mas não entraram no médio, esta quantia sobe para R$ 524. Entre os que ingressaram no ensino médio mas não o concluíram, a renda sobe para R$ 626.

Os educadores avaliam que um aluno dificilmente volta à escola depois de desistir dos estudos, principalmente devido à diferença entre sua idade e a série em que está inscrito. O colégio também torna-se pouco atrativo porque não consegue contextualizar para o aluno temas que parecem abstratos.

Os professores também não se adequaram à nova realidade dos jovens, alerta Alessio Costa Lima, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

— Uma aula hoje não pode ser como dez anos atrás — alerta. — Com as redes sociais, os alunos já chegam à escola com uma série de informações. Precisamos trabalhar com este conteúdo.

Outras questões, no entanto, só podem ser resolvidas regionalmente. Costa Lima acredita que não é possível adotar uma política única para educação sexual, já que dados voltados à gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis têm grandes variações regionais. As escolas devem reportar os casos às famílias; estas devem preparar os filhos para que não passem por constrangimentos.

Ensino Intensivo

Nas escolas municipais cariocas, a gravidez precoce e a preparação para o mercado de trabalho são abordados em vídeos. A diminuição da defasagem entre idade e série foi turbinada com um programa de ensino intensivo, que já levou cerca de 50 mil jovens a ingressarem no ensino médio no tempo correto.

A secretária municipal de Educação, Helena Bomeny, reconhece que a “rebeldia da idade” diminui a identificação do aluno com a escola.

— Desenvolvemos disciplinas como projeto de vida, em que o aluno escolhe tipos de atividade para desenvolver, estudos dirigidos em grupos menores e disciplinas eletivas para alunos do sétimo ao nono ano do ensino fundamental — lembra.

O governo estadual, por sua vez, investe na reorganização do currículo escolar para diminuir a defasagem entre a idade e a série dos estudantes em todo o ensino básico. Outra aposta é na educação integral. Em 2008, o índice de evasão escolar no ensino médio foi de 18%; em 2014, 7%.

Segundo o levantamento, há 1,7 milhão de jovens com 15 a 17 anos fora da escola, porém entre estes, 19% já concluíram o ensino médio. Os índices registrados na pesquisa apontam uma melhora em relação ao cenário observado dez anos atrás. À época, 74% dos jovens entre 15 e 17 anos que abandonaram a escola não tinha terminado o ensino fundamental.

— A evasão continuará diminuindo, mas isso não está acontecendo em uma velocidade satisfatória — considera.

Imagem: Reprodução
O Globo


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